COLUNA DO IVAN. NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAIS.

ivanQuem acompanha o noticiário no dia a dia, percebe o quão conturbada parece a vida no Brasil, principalmente na política. Aí vem a pergunta que se ouve a todo momento: o que está acontecendo com o Brasil?

Acontece que o Brasil mudou muito e continua mudando não só em seus aspectos políticos, mas também sociais e culturais. Para entender o que se passa no Brasil, é preciso lembrar que hoje vivemos em um país alfabetizado e urbano. Há cinquenta anos atrás, no final da década de sessenta, 70% da população era rural. Nesta época, quando eu ainda cursava o Ensino Médio, fiz parte dos 67,5% da população de 7 a 19 anos escolarizada. Se estendermos esta faixa etária para a população adulta, 45% da ´população era analfabeta. Fiz parte, ainda, dos 7,5%% que concluíam o ensino médio, e dos 2,7% que chegavam à Universidade. Os cursos de Letras, em que me formei, eram poucos. Na década de sessenta, havia 63 cursos de Direito no Brasil. Hoje, passam de mil. Atualmente, 95% das crianças estão na escola e em grande parte, urbana. Claro que ainda estamos muito longe de uma escolaridade e letramento ideal. Mas a alfabetização em si já faz uma diferença muito grande.

O Brasileiro tem hoje uma capacidade de compreensão muito maior do que há cinquenta anos atrás. A maior parte da população tem televisão, acompanha os acontecimentos e, aos poucos, vai alimentando e aumentando seu substrato cultural. Além disto, a população está cada vez mais conectada às redes sociais. Instantaneamente ligada aos acontecimentos, se informa, emite opiniões, tem maior capacidade e possibilidade de se agregar, de se unir das mais diversas formas, em torno de ideologias, em defesa de causas variadas. Surgem associações em defesa de interesses mais diversos. Grupos informais defendem ou combatem bandeiras muito específicas. A pluralidade é incontestável.

As transformações colocam em cheque instituições tidas como imutáveis. Quem diria que o whap zap desestruturaria a telefonia? Ou o uber, os taxis? E a moeda virtual a concorrer com os Bancos? Ou seja, as grandes corporações já não atuam sozinhas. Seus ramos de atuação vão sendo diluídos e diversificados e desestabilizados por outros meios. O controle das atividades já não está mais na mão de um grupo só. Nem mesmo na mída.

Como consequência, as vozes, opiniões já não são uníssonas. Cada grupo atua ao seu modo, reivindica causas relevantes ou ideias espalhafatosas. Pior ainda, com a convicção de estão com a razão e qualquer discordância vira um anátema e os discordantes merecem ser queimados em fogueiras como na Idade Média.

Em decorrência de tudo isto, hoje, o que se observa no Brasil, é uma radicalização em todos os setores gerando uma intolerância que coloca em cheque a boa convivência social. O brasileiro como Homem Cordial, criado pela sociologia, ficou distante. Há um radicalismo como nunca se viu na história deste país. Grupos retrógrados, grupos conservadores atuam como se quisessem voltar e parar o tempo, contrariando a História que nos mostra a transformação contínua, sem retrocessos ou interrupções, do círculo do desenvolvimento e da evolução da humanidade. Grupos liberais atuam como se tivessem reinventando o mundo, como se não fosse possível a convivência de opiniões divergentes. A visão de um e outro leva ao confronto. Há um policiamento ideológico como nunca se viu nem na ditadura de 1964. Naquela época, a censura era apenas do Estado. Claro que com consequências muito mais nefastas, com cerceamento da liberdade de expressão ou com perseguições cruéis à esquerda. Hoje, todo mundo se julga no direito de censurar todo mundo, com um denuncismo constante na mídia e redes sociais. Cada grupo se vê no direito de demonizar outro grupo.

Tudo isto resulta em um ódio sem precedente na sociedade brasileira. Nunca antes na História deste Pais, se viu a sociedade tão radicalizada, tão polarizada, com tanto ódio disseminado por grupos e por ideologias que se vão propagando. Pior ainda, há, nas redes sociais, um tratamento, rude, grosseiro, muitas vezes ofensivo, como se a cortesia, a polidez não fossem necessárias nas redes e no convívio social.

A pluralidade de ideias é necessária em qualquer sociedade. É preciso, que haja respeito e tolerância com pensamentos diversos , que se tenha em mente o objetivo de melhorar nosso país, principalmente, diminuir a desigualdade social. Queremos que o Brasil cresça e a economia vai crescer muito nos próximos anos. Mas com tanta radicalização e polarização ideológica e com tanta desigualdade social, não haverá crescimento sustentável e duradouro.

É preciso unificar o país. Para unificá-lo, precisamos de grandes líderes, hoje inexistentes. Não há no executivo, nem no judiciário e muito menos no legislativo, pessoas capazes de apontar rumos para a sociedade. O congresso vive de mesquinharias, sem pessoas altruístas para exercer uma liderança nacional. Que falta nos faz o Pedro Simon! Se ainda estivesse na política, tenho certeza de que tudo seria diferente. Infelizmente, não nos deixou um sucessor.


bella-forma-29012020 03